15 de fevereiro de 2011

se eu voltasse atrás:

À pouco vinha no autocarro para casa, e entrou numa das paragens uma rapariga, eu olhei bem para ela, e está tão diferente (...), era a C. e sorri logo, ela não. Ficou com a expressão normal com que vinha, e estavam mais duas pessoas à frente dela, por uns segundos uma das pessoas até a "tirou" do meu alcance de visão. Só quando passou ao meu lado parou. Deu-me dois beijos, perguntou se estava tudo bem, sorriu e seguiu. E custa-me tanto dizer que seguiu. Há tantas pessoas que foram amigas proximas em tempos, e que até as vejo e passo por elas completamente indiferente, outras passo e digo olá e seguem tal como a C. seguiu, mas é a C. e só hoje é que percebi que "era ela". Não é a primeira vez que a vejo depois de estar numa escola diferente, mas hoje realmente foi diferente.
A C. foi a minha melhor amiga na pré-primária, na primaria, e até chorei baba e ranho com medo que no quinto ano ela fosse para uma outra escola, mas acabou por ir para a minha, e quando a vi no dia da matricula fui a correr e abracei-a com uma felicidade tão feliz e tão ingénua como a que temos em crianças. Eramos iguais, eramos pequeninas, parecidas, usavamos as duas oculos e havia uma empregada lá na escola que nos fazia dois totos a cada uma, adorava-nos lembro-me tão bem dessa senhora, nós as duas andavamos todos os intervalos juntas de mãos dadas a correr, a saltar, a brincar e a contar coisas, segredos, ela é uma das três pessoas na minha vida que sabem o meu Segredo, ela foi a primeira pessoa no mundo a quem o contei.
Sonhavamos e diziamos que iamos ser amigas para sempre, eu almoçava muitas vezes em casa da ama dela, ela ainda me tentou ensinar a andar de bicicleta (mas sem sucesso, ela andava super bem), corriamos até à escola nessas horas de almoço no verão, e passavamos pelos repuchos do castelo, molhavamo-nos todas, chegavamos à escola encharcadas mas contentes, felizes como só em criança o conseguimos ser, em pleno.
Foi a minha melhor amiga de infância, que continuou na minha turma até ao 9ºano ainda que com uma relação mais distante.
Hoje senti saudades, já não sei nada dela, que estranho que é. Conhecia-a melhor que ninguém, e hoje passamos uma pela outra e simplesmente damos dois beijos e seguimos. Surgem sempre aquelas perguntas, "Será que não tem saudades minhas?", "E a carta, já tem?", "A faculdade será que vai, que foi?".
Só me apetece enviar-lhe um e-mail, porque ela ainda não mudou de e-mail desde a altura, e dizer-lhe "é a A., depois de te ver no autocarro fiquei com saudades tuas (...),  lembraste disto, e daquilo (?)", tentar, ainda que pudesse ser um fracasso e ela não estivesse minimamente interessante em tal coisa.
Porque é que temos medo, medo e vergonha de mostrar o que sentimos ao outros? Porque é que pensamos duas e três vezes se havemos de tentar ou não recuperar uma amizade? Porque é que em vez de escrever isto já não estou directamente a escrever-lhe um e-mail? 

"Ainda me lembro
Quando tinha a tua idade
Corria pelas ruas
E não percebi

São esses tempos
Que nos deixam mais saudades
Os melhores momentos
Que eu já vivi

Se eu voltasse atrás
Por minha vontade
Trocava alguns anos desta vida
Por um só dia na tua idade"
Pólo Norte

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