10 de dezembro de 2010

Mentiria se:

...dissesse que o que mais me apetece não é meter-me dentro de um avião ou de um autocarro rumo a Whisker, mentiria se dissesse que o que mais desejo não é ver-te e abraçar-te e beijar-te e dar-te a mão, passear contigo, brincar na neve e ir ver os jogos de hóquei e a patinagem na pista de gelo em frente ao teu hotel, mentiria se dissesse que o que mais queria não era entrar por esse café (de onde me falas) a dentro e ver-te levantar e pegar-me pela cintura de felicidade, mentiria ainda se dissesse que o que mais me apetece não é partilhar esse quarto de hotel minúsculo contigo e enche-lo de cor, de fotografias, de candeeiros e autocolantes, de camisolas minhas, brincos e colares, de escrever no teu espelho com batom vermelho (isso aquele mesmo), mentiria se dissesse que o que mais queria não era acordar deste aperto, desta angustia prolongada, destes arrepios que sinto quando me lembro do tempo, de todos os dias que faltam.
Já diziam os Deolinda: "Proibissem a saudade de cantar, / Havia de ser bonito… (...) E ao calor de uma fogueira, um amigo / Com a voz mais aquecida lá entoa: / Que a saudade mais que um crime é um castigo, / E prisão por prisão, temos Lisboa.", e faço minhas as palavras deles.
Hoje lembrei-me que estamos tão grandes, já sentimos estas coisas no coração, já andamos sozinhos à noite na rua, já (estando preparados ou não) saímos de casa em busca de algo mais, tu já foste para tão longe, vives sozinho agora, passeias sozinho, almoças jantas e vais ao café sozinho num pais diferente onde tudo é diferente e tu não conheces nada, sabes quando estiveres doente serás tu a sair do quarto a ir à rua para encontrar uma farmácia e esperemos que falem inglês, no dia seguinte o almoço vai ser o que calhar não vai ser apropriado à tua má disposição. Eu espero em Outubro sair de casa também, ficar mais perto, a duas horas da minha casa e da tua também, mas sair de casa e sentir parte do que sentes e assusta-me, sabes?! Assusta-me, assustas-me.
Hoje lembrei-me de tudo quando disse à minha mãe: "Vou ao café preparar a catequese de sábado" e ela perguntou "Vais sozinha até ao café?" e eram dez horas da noite e eu disse: "Sim.", e fui eu por aí pela rua de all star, leggins, uma camisola larga, um cachecol, um casaco de ganga, uma mala pequena e de phones nos ouvidos, tranquila e envolvida em tudo o que me sugere a distância a que estou de ti. Pelo caminho ainda comprei tabaco e parei num beco qualquer a fumar um cigarro, sempre com a música a envolver-me cada vez mais, dei por mim a rir sozinha a olhar para as folhas a caírem, a lembrar-me do dia em que fui pela primeira vez madrinha e nessa noite fomos sair. Ao fim da noite nós vínhamos os dois a conversar e a fumar um cigarro até à rotunda do ciclo que já tinha os repuxos abertos aquela hora, e eles foram todos na frente molharem-se nos repuxos, brincarem, caírem, nós estávamos quietos mas tu disseste vamos e eu tirei o colar, o telemóvel do bolso, pousei a mala e somos a correr para lá, tu levaste-me às cavalitas, e depois cai, e molhamo-nos tanto e rimos e vivemos mais uma de tantas as coisas que se vivem só uma vez na nossa juventude e na nossa vida. Viemos a pé até casa e é tão longe, viemos molhados a rir e a olhar para o céu como eu tanto gosto, passei a noite inteira a dizer: "Odeio-te", proferia-o com entusiasmo e tu achavas piada, tanto andamos, que acabamos por nos deitar na estrada, acabamos a noite a dizer como sempre: "Até amanhã, amanhã liga!". Este momento de lembrança fez-me rir sozinha num beco qualquer em Lisboa tão longe de onde tudo aconteceu, mas tão ainda mais longe de ti. Mas tive que desligar a música e ir cumprir com as obrigações (e dar catequese é um gosto não uma obrigação). Já quando estava a voltar para casa parei no sitio onde me despedi de vocês, em Novembro, e fumei mais dois cigarros para deixar retomar as lembranças que me tornam o coração pequenino pequenino de tão apertado que está, e se vocês soubessem a diferença que faz estarem ou não. E se vocês soubessem que há muito tempo passaram a barreira de Amigos de verão para Amigos de coração, de amor.
D. os bons amigos sabem todas as nossas melhores histórias, mas os melhores amigos vivem-nas connosco!

Sem comentários:

Enviar um comentário